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sábado, 24 de setembro de 2016

Xintoísmo é Buda

Tempos atrás sonhei sobre o xintoismo....,..frutas....e a frase: xintoísmo é buda.. Momento conhecimento...uma busca sobre o tema

Xintoísmo e Budismo:
Nascentes da Espiritualidade Japonesa
por Paul Watt

A tradição religiosa japonesa é rica e complexa e ocasionalmente intriga o povo ocidental com suas facilidade e com suas tendências muitas vezes contraditórias na linha e prática religiosa. Ao lado da tradição está o Xintoísmo, a religião indígena do Japão, e do outro lado, o Budismo, uma religião hindú que chegou ao Japão entre os séculos VI e VII D.C. vinda da Coréia e da China. Ao longo da enorme história japonesa, tem sido estas duas religiões que mais contribuíram para que os japoneses compreendessem a si próprios e ao mundo que pertencem.

O Xintoísmo

O Xintoísmo é a religião mais antiga do Japão, sua origem é obscura e datada de, pelo menos, metade do primeiro milênio antes de Cristo. Até aproximadamente o século VI D.C., período este em que os japoneses tiveram uma influência mais rápida da civilização continental, existia uma grande mistura de devoções à natureza, incluíndo cultos de fertilidade, técnicas de divindade, devoção a heróis e o Xamanismo. Ao contrário do Budismo, Cristianismo ou Islamismo, o Xintoísmo não teve fundadores e não desenvolveu escrituras sacradas, filosofias religiosas explícitas ou um código moral específico. Na verdade, os antigos japoneses encaravam a religião com tanta naturalidade que não tinham sequer um termo para defini-la. A palavra Xinto ou "O caminho do kami (deuses ou espíritos)", veio a ser usada apenas após o século VI, quando os japoneses procuraram distiguir sua própria tradição das religiões estrangeiras que foram encontrando pela frente, como o Budismo e o Confucionismo. Assim, em sua origem, o Xintoísmo era a religião das pessoas ainda não contaminadas pelo ocidente e que, acima de tudo, eram sensíveis às forças espirituais espalhadas pela natureza em que viviam. Como mostra uma crônica antiga: no mundo destas pessoas, inúmeros espíritos brilhavam como vagalumes e todas as árvores e arbustos eram capazes de falar.

Extraordinariamente, nem a caracterísitica relativamente primitiva e original nem a introdução de religiões mais sofisticadas como o Budismo e Confucionismo fizeram com que o Xintoísmo tivesse menos importância. Em parte, sua existência duradoura pode ser explicada, apontando algumas mudanças que ocorreram após o século XI, as quais o transformaram gradualmente em uma religião de santuários, grandes e pequenos, com festivais e rituais praticados por uma distinta classe sacerdocial. No entanto, estas mudanças tiveram pouca influência nos valores e atitudes básicos do Xintoísmo. O que foi realmente crucial para sua sobrevivência foram as profundas raízes no dia-adia da vida do povo japonês e tambem sua forte e conservadora relação com a cultura japonesa.

A visão do mundo para o Xintoísta é fundamentalmente brilhante e otimista, e assim, nada mais apropriado que ter como sua principal divindade, uma deusa do sol. Uma vez que eram conhecidos os aspectos mais negativos da existência humana, a razão de ser de um xintoísta é a celebração e o enriquecimento da vida.

É possível aprender muito sobre a visão xintoísta do mundo através da mitologia japonesa. Dois trabalhos datados do século VIII, o Kojiki (Registro de Assuntos Antigos) e o Nihon shoki (Crônicas do Japão), contam a história da criação das ilhas japonesas por um casal divino, Izanagi e sua companheira Izanami. Eles contam também o nascimento de diversos deuses e deusas, como a Deusa do Sol, Amaterasu, chefe de todos os deuses, bem como sua linha de descendentes que governavam as ilhas. Dois aspectos da mitologia são particularmente relevantes. O primeiro é sua orientação para os diversos mundos, os quais são mencionados na mitologia, como por exemplo a Grande Planície do Céu, ou a Terra Escura, uma terra impura dos mortos. No entanto, recebemos apenas explicações superficiais sobre eles. Abençoados com um clima ameno, mares férteis e paisagens impressionantes com montanhas, os japoneses antigos parecem ter sentido uma pequena compulsão por olhar além da presente existência.

O segundo aspecto importante da mitologia é a forte relação entre os deuses, o mundo que eles criaram e os seres humanos. As tensões entre o Criador e suas criaturas, e entre o humano e o terreno, presentes nas religiões ocidentais, são visivelmente inexistentes. Na visão xintoísta, o estado natural do cosmos é uma harmonia na qual os elementos divinos, naturais e humanos estão intimamente relacionados. Além disso, a naturaza humana é vista como inerentemente boa e o mal é visto como resultado do contato dos indivíduos com forças ou agentes externos que poluem nossa natureza pura e faz com que hajamos de forma contrária a esta harmonia primordial.

As divindades do Xintoísmo são chamadas de kami. O termo é freqüentemente traduzido como "deus" ou "deuses", mas representa um conceito de divindade bastante diferente daquele apresentado pelas reiligiões ocidentais. Particularmente, as divindades xintoístas não possuem características de absoluta transcendência e onipotência comunmente associadas com o conceito de Deus no Ocidente. O kami, de uma forma mais abrangente, é visto como algo que seja extraordinário e que inspire admiração ou reverência. Conseqüentemente, existe uma grande variedade de kami no Xintoísmo: existem os kami relacionados a objetos e criaturas da natureza, tais como o espírito das montanhas, dos mares, dos rios, das rochas, das árvores, dos animais e assim por diante; existem kami guardiões de locais e clãs em particular; exitem também seres humanos excepcionais que são considerados kami, incluindo a longa linhagem de imperadores japoneses, exceto o último. Finalmente, o abstrato, forças criativas são reconhecidas como kami. Espíritos do mal também são conhecidos no Xintoísmo, mas apenas alguns são considerados irrecuperáveis. Enquanto um deus pode chamar atenção primeiramente para sua presença através de uma amostra de comportamento atormentado ou até mesmo destrutivo, geralmente falando, o kami é benigno. Seu papel é de sustentar e proteger.

A devoção no Xintoísmo é utilizada para expressar gratidão aos deuses e para assegurar a continuidade da graça. A devoção pode tomar a forma de um dos grandes festivais que ocorrem em dias determinados durante o ano, no sentido de celebrar a plantação da primavera, a colheita do outono e outras ocasiões especiais na história de um santuário. No entanto, estes festivais podem ser praticados em casa, de forma particular e bem mais discreta, ou no santuário do bairro. Embora um festival pode durar vários dias, diferentes contrastes de comportamento dos praticantes, onde uns são mais solenes outros mais fervorosos ou até mesmo barulhentos, os rituais podem durar apenas alguns instantes para serem completados. Mesmo observando estes contrastes, todos os tipos de devoção no Xintoísmo possuem em comum três elementos essenciais. Todos começam com o importante ato de purificação, o qual é comum a utilização de água. Em todos existem também o ato de oferendas aos kami, através de dinheiro ou comida. E, finalmente, em todos é feita uma prece ou um pedido. Podemos notar que a devoção no Xintoísmo é geralmente praticada em um santuário. Estas estruturas, as quais são feitas de elementos naturais e localizadas em pontos escolhidos por seus ábades para a localização do kami ao invés de construirem um local fechado para o abrigo dos fiéis (como uma igreja, por exemplo).

Levando-se em conta que o Xintoísmo não possui escrituras, dogmas e credos, a devoção sempre foi o ponto central desta religião. Ao invés de sermões ou estudos, tem sido através de seus festivais e rituais, assim como a característica física do próprio santuário, que o Xintoísmo vem transmitindo suas características e valores característicos. O valor de maior destaque entre todos está o senso de gratidão e respeito pela vida, uma profunda apreciação da beleza e da força da natureza, um amor à pureza e, por consegüinte, a limpeza e a preferência pela falta de adornos e simplicidade na área estética.

Budismo

Quando o Budismo entrou no Japão no século VI D.C., ela ja era uma religião mundialmente conhecida com uma história de mais de 1000 anos de idade. A forma de Budismo que predominou no Japão desde o início é conhecida como Mahayana, o Budismo do Grande Veículo, a qual trouxe consigo uma vasta biblioteca religiosa, uma doutrina bem elaborada, um clero bem organizado e uma estonteante tradição de arquitetura e arte sacra, ou seja, tudo o que faltava no Xintoísmo no século VI. Embora sua visão sobre o mundo e sobre a humanidade tenha sido sempre diferente da xintoísta, é importante entender que é possível encontrar tanto diferenças como similaridades das tradições nativas nos ensinamentos do Budismo Mahayana. Por um lado, por exemplo, o Budismo enxergava o mundo como uma etapa de transição ou uma fonte de sofrimento para aqueles que permaneciam ligados a ele, ou seja, uma visão muito contrastante com a "aceitação do mundo" adotada pelo Xintoísmo. Por outro lado, existia um grande otimismo no Budismo Mahayana que se aproximava bem do Xintoísmo, um otimismo sobre a natureza humana, onde acreditava-se que todos os seres humanos tinham o potencial the absorvar a sabedoria que traz o fim do sofrimento e um grande otimismo sobre o mundo em si, uma vez que os ensinamentos dizem que quando os humanos desapegam das coisas da Terra, o mundo passará a ter um novo e positivo significado.

Não é de se surpreender que a princípio os japoneses foram incapazes de gostar do Budismo do jeito que ele era. Eles viam o Buddha simplesmente como um outro kami e foram atraídos para esta religião pela beleza de sua arte e a esperança de benefícios concretos como riqueza e longevidade que, ao nível popular, eram prometidos pelo Budismo sem nenhum desdém. Porém, no século VII, os indivíduos capazes de compreender as mensagens começaram a emergir. Normalmente, nós podemos entender o desenvolvimento subseqüente do Budismo no Japão como o resultado de constante interatividade entre a religião estrangeira e a tradição religiosa local. O Budismo procurou conscientemente desenvolver uma conexão positiva com o Xintoísmo. E isto foi eventualmente conquistado través da identificação dos kami xintoístas como manifestações de diversos Budas e bodhistattvas que cresceram dentro do Budismo Mahayana. Através deste conceito, os budistas foram capazes de introduzir muitas de suas próprias idéias ao Xintoísmo e, por fim, argumanta-se que o Xintoísmo e o Budismo são versões complementares de uma mesma verdade fundamental, visão esta que ganhou uma vasta aceitação no Japão.

O efeito da tradição religiosa nativa no Budismo foi trazer à tona os aspectos que mais se ajustavam ao gosto dos japoneses. Isso pode ser ilustrado por breves referências às três seitas budistas que representam exclusivamente od desenvolvimentos japoneses: Seita Shingon de Kukai (774-835), Seita Terra da Verdadeira Pureza de Shinran (1173-1262) e a seita fundada por Nichiren (1222-1282) conhecida por seu próprio nome. Todas estas seitas estão vivas até hoje. A Seita Shingon está situada na corrente principal do Budismo, em termos de doutrina - enfatizando a transitoriedade da natureza da existência e chamndo seus seguidores a transcenderem o mundo comum do sofrimento - e na ampla linha de suas práticas, as quais enfatizam a importância da conduta ética, meditação e estudo. No entanto, o Budismo de Shingon defende um tipo diferente de meditação. Uma meditação mais complexa que a tradicional que envolve o uso de alguns gestos manuais simbólicos e discursos chamados de mudras e mantras, assim como uma forma de arte budista connhecida como A Mandala. A Mandala representa o universo como ele é visto pelos iluminados e serve como objeto de meditação. A pura complexidade da meditação de Shingon somada com a rica simbologia e a beleza da Mandala, proporciona a esta seita um ar de mistério que tem se provado bastante atraente a milhões de japoneses desde a era de Kukai até os dias de hoje.

Na Seita Terra da Verdadeira Pureza, encontramos um tipo bem diferente de Budismo, o qual defente a salvação pela fé ao invés da obtenção da iluminação através da prática da moralidade e da meditação. Baseada na crença de que conforme o passar do tempo os seres humanos encontram uma crescente dificuldade de seguir o exemplo do histórico Buda - idéia esta remanecente desde a época da Índia - é ensinado que na presente era a salvação pode ser adquirida apenas através da confiança na graça salvadora do celestial Buda Amida, que reside em uma terra pura no Ocidente. Esta crença tem sido abraçada por outros budistas não só no Japão, mas também na China e Índia; mas Shinran foi a primeira seita na história do Budismo a descrever a conclusão radical a caeitação de tudo deve levar ao abandonamento completo da disciplina monastérica. Conseqüentemente, desde a época da Shinran, tem sido comum aos sacerdotes da Seita da Terra da Verdadeira Pureza viverem e se casarem como pessoas leigas e as seitas têm sido um dos maiores desenvolvimentos no Japão.

Finalmente, observamos na Seita Nichiren uma certa superficialidade no Budismo através de uma maneira dramática, onde o forte senso de nacionalismo tem sido frequentemente relacionado ao sentimento religioso no Japão. Nichiren foi uma reformista fervorosa que focava muito a si própria e ao Japão como centro de um movimento mundial para reviver o que eles consideravam o verdadeiro Budismo.

Estas figuras e seitas não refletem, é claro, todas as muitas formas nas quais o Budismo foi transformado no Japão. Ao contrário, podemos extraír pequenas amostras das características mais visíveis do Budismo Japonês. Em Shingon, observamos uma forte atração aos elemsntos místicos e misteriosos, assim como formas estéticas de aprecisação e expressão. Na Seita da Terra da Verdadeira Pureza, vemos uma certa preferência por um tipo de Budismo que pode ser seguido dentro do contexto da vida cotidiana e na Seita Nichiren, detectamos uma consciência de identidade nacional sempre presente. Dada a ênfase do Xintoísmo nos rituais e figuras estáticas dos santuários, sua orientação sobre este mundo, e sua íntima conexão aos mitos das origens japonesas e a linha imperial, não é difícil de dicernir a influência da religião nativa e o cunho dessas mudanças.

Para referência futura

de Bary, Wm. Theodore. "Religião Japonesa" em Arthur E. Tiedemann, ed., "Uma Introdução à religião japonesa", Lexington, Massachusetts: D. C. Heath and Company, 1974. Discute o Xintoísmo e Budismo, além de outras religiões que são parte da tradição religiosa japonesa.
"Religião japonesa: Uma pesquisa feita pela Agência de Assuntos Culturais", Tokyo: Kodansha International, 1972. Veja a "Introdução" e capítulos sobre o Xintoísmo e o Budismo.
Picken, Stuart D. B. "Xintoísmo: Raízes Espirituais Japonesas, Tokyo: Kodansha International, 1980. Ilustrada com fotografias.
Xintoísmo: Natureza, deuses e o homem no Japão, um filme realizado pela Sociedade Japonesa. Exceto pela ênfase cansativa entre as diferenças entre o sagrado e o secular e os lugares das imagens no Xintoísmo, é um filme útil e bonito. Disponível na Sociedade Japonesa, 333 East 47th Street, New York, N.Y. 10017; também disponível na Biblioteca Audio-Visual do Programa de estudos Asiátios do Oriente na Earlham College, Richmond, Indiana 47374.
Sokyo, Ono. "Xintoísmo: O caminho do kami", Rutland, Vermont: Charles E. Tuttle Company, 1962.
Nota do Sensei Wagner Bull:É interessante a visão que os ocidentais tem das religiões orientais.
Fria e sem o envolvimento da emoção que as caracteriza, principalmente quanto ao Shintoismo.

http://www.aikikai.org.br/art_xint_budismo.html

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Natal é Pagão ou não



para compreendermos essas organizações criminosas que usam o evangelho para a prática de crimes ou doenças: estupros, lavagem de dinheiro, homofobia, racismo, distanciamento

 



Naiara Marques 
Parabéns pelos seus vídeos e por explicar as coisas com embasamento histórico. Um dos melhores vídeos do canal até hoje. Que Deus te abençoe hoje e sempre.

sábado, 15 de agosto de 2015

Allan Wallace: o cientista da consciência

Nesta sonhei com o nome Ivan Marcelo Pawane que confundi com Pawane ao buscar no google onde achei isso:

ENTREVISTA

Allan Wallace: o cientista da consciência

É difícil meditar quando se tem fome, diz Alan Wallace, o físico que foi monge. Hoje, além de escritor de quatro livros sobre ciência e práticas contemplativas, ele comanda neurocientistas, sociólogos e psicólogos, num instituto de estudos da consciência, na Califórnia

Liane Alves - Revista Vida Simples - 10/2009
©Divulgação
Alan Wallace tem uma característica especial que o diferencia dos seus pares na área da física e da neurobiologia: foi durante 20 anos um monge budista,morou em Dharamsala, na Índia, traduziu mais de 30 livros do tibetano para o inglês, estudou com os mais altos mestres do Tibete e ainda ocupou o posto de intérprete ofi cial de sua santidade, o Dalai-Lama. Hoje, novamente como cientista e físico e autor de quarto importantes livros sobre ciência e práticas contemplativas, Wallace comanda um verdadeiro exército de neurocientistas, antropólogos, sociólogos e psicólogos no Instituto Santa Bárbara de Estudos da Consciência, na Califórnia.

Sua missão principal é analisar os efeitos da meditação nos seres humanos em dezenas de experimentos e numa enorme gama de voluntários – desde de quem nunca meditou até monges com milhares de horas dedicadas à prática. As descobertas desses estudos surpreendem e seu olhar sereno sobre o despertar interno da consciência traz esperança para a humanidade. Alan Wallace esteve em junho no Brasil a convite do Centro de Estudos Budistas Bodisatva para dar palestras em várias capitais brasileiras e lançar seu ultimo livro, As Dimensões Escondidas.

A meditação não é necessária à sobrevivência. Que vantagens poderia haver para um ser humano comum a prática de meditar todos os dias?
Se você tiver um cachorrinho, der a ele um bom prato de comida e deixá-lo namorar as cachorrinhas da vizinhança, ainda assim você não pode dizer a ele: “Ok, cachorrinho, estou dando uma boa alimentação, deixando você ter o sexo que quiser, então, agora, já que você tem tudo, vamos para um lugar tranquilo para tentar meditar um pouquinho...” (risos) Provavelmente seu cachorro vai preferir tirar uma soneca para daí a pouco querer comer de novo, ter mais sexo e assim por diante. Nosso lado animal não quer saber de meditar e pode viver perfeitamente bem sem a meditação ou qualquer outra prática espiritual. Mas temos a consciência. É ela que vai se interessar por alguma coisa além da satisfação das necessidades físicas. Mas, em todo caso, é mais fácil quando temos as necessidades materiais básicas satisfeitas. É difícil querer meditar quando se tem fome, frio, quando se está doente ou não se tem um teto. Um praticante experiente pode fazer isso, mas para uma pessoa comum é difícil.

Mesmo assim, a resistência pode ser grande. Por quê?
Quando as pessoas atingem esse nível básico de segurança e felicidade materiais, geralmente vão querer mais do mesmo. Isto é, se elas têm uma casa, vão querer uma mansão, se têm um carro, vão querer outro, se têm alimento suficiente, vão sofisticá-lo. Querer mais da mesma coisa para satisfazer nosso lado animal é o que acontece para pessoas sem muita imaginação. Mas, se usarmos a inteligência e a memória únicas de um ser humano, vamos ver que ter mais da mesma coisa realmente não nos faz muito mais felizes ou satisfeitos. É fácil observar quantas pessoas ricas, famosas ou intelectualmente dotadas, como os grandes cientistas e escritores, se sentem frustradas, infelizes, deprimidas, inseguras. Então, é necessário usar nossa inteligência humana para perguntar a verdadeira questão: qual é a real causa da felicidade? O que realmente pode nos fazer felizes?

Qual seria a resposta?
Ir em direção aos níveis internos de consciência. Quanto mais você se aprofundar neles, mais o nível externo e material se torna relativo. Conheço monges no Tibete vivendo em condições precárias, sem aquecimento, roupas ou alimentação adequados, e que são felizes. Não é que alguém tenha de negar ou abandonar de vez a efêmera felicidade material. Mas, ao experimentar outros níveis de consciência, você se torna muito menos dependente do externo para ser feliz. Fama, sucesso, beleza e riqueza material diminuem de importância de forma absolutamente natural. Outras qualidades emergem: amor, compaixão, satisfação e pacificação internas, as verdadeiras causas da felicidade mais perene.

O senhor poderia dar um resumo dos benefícios de um período de meditação de 20 a 30 minutos por dia?
Já foi cientificamente provado que um curto período de prática como esse é capaz de aumentar expressivamente nosso equílibrio emocional, nossa capacidade de atenção e presença e ainda gerar uma empatia pelas pessoas. Essa condição resulta num decréscimo de estresse e ansiedade e no notável aumento de bemestar. É como manter a prática diária de uma “higiene psicológica”, que nos ajuda a manter um nível alto de saúde mental e resiliência.

O título do seu livro mais recente fala em “dimensões escondidas”. Quais são elas e como acessá-las com a prática da meditação?
A ciência moderna pode contra com telescópios avançados para perscrutar o Universo, mas não desenvolveu um telescópio capaz de nos fazer alcançar os níveis internos de consciência. E isso as tradições como o vedanta, no hinduísmo, o hesicasmo, no cristianismo, a cabala, no judaísmo, e o dzogchen, no budismo, fazem. Essas práticas nos revelam dimensões múltiplas de consciência, algo além da nossa classificação de mente consciente e inconsciente. Eles identificaram um reino de existência muito mais sutil, que vai além do mundo dualístico de material e energia. É desse plano que falo emAs Dimensões Escondidas. Os praticantes de meditação foram capazes de atingir o grau supremo de realidade que transcende o espaço, o tempo e os conceitos. Esse é o nível primordial de consciência, a fonte de toda virtude e felicidade genuínas, que é conhecido como Deus nas tradições teístas ou plano supremo, de onde tudo emerge, ou dharmakaya, no budismo. A experiência contemplative fornece um elo entre a ciência e a  espiritualidade, pois ela mesma se baseia na experiência, exatamente como se faz nos experimentos científicos, e na racionalidade, com a vantagem de poder ir além de qualquer ramo que a ciência possa penetrar. A união da investigação científica com a experiência contemplativa pode gerar uma grande revolução da ciência. Essa pode ser uma possibilidade gigante que se abre, capaz de curar a distância entre ciência e religião e mesmo entre as religiões que estão em luta pelo mundo.

PARA SABER MAIS:
As Dimensões Escondidas, Alan Wallace, Fundação Peirópolis



http://planetasustentavel.abril.com.br/noticia/atitude/meditacao-alan-wallace-monge-budismo-cientista-505341.shtml?func=2


sábado, 18 de julho de 2015

O ponto de acumulação

Por Gustavo Gollo, no GGN 

Por Gustavo Gollo
Em algumas décadas presenciaremos um fenômeno sem precedentes, a maior explosão criativa já ocorrida: o ponto de acumulação.
A maior parte das ideias científicas permanece circunscrita a um diminuto círculo, raramente transcendendo os limites de pequenos grupos de cientistas. Algumas delas, no entanto, são do interesse coletivo imediato, e devem transbordar para a população.
Tempos atrás descrevi um fenômeno que chamei “metaevolução” e que consiste na evolução da própria evolução. Ao analisarmos a longa história dos seres vivos percebemos, nitidamente, certos eventos, ou momentos marcantes, que os diferenciam dos demais.
Nos primórdios da vida, por exemplo, as alterações transcorriam muito lentamente até a ocorrência de algo chamado “explosão cambriana”, momento registrado com nitidez nas camadas fósseis da época, e que consistiu no repentino surgimento de uma enorme diversidade de seres complexos. Camadas geológicas anteriores a tal período registram apenas fósseis muito simples, contrastando claramente com as desse período (as camadas são datadas com precisão através da determinação de marcadores radioativos). Minha explicação para o fenômeno consiste na postulação do surgimento prévio da reprodução sexuada, fenômeno capaz de induzir a diversificação, compelindo, também, as espécies a um aumento contínuo de complexidade.
O fenômeno consiste na ilustração de um salto evolutivo. Durante centenas de milhões de anos a vida no planeta se restringia a relativamente poucas formas de vida, todas elas bastante simples; repentinamente (em uma escala paleontológica) surgem inúmeras formas de vida muito mais complexas que as anteriores, indicando ter a vida subido um degrau evolutivo, acelerando-se.
Explico o fenômeno em:
e:
Outros saltos evolutivos marcaram o desenvolvimento da vida no planeta, tornando-a significativamente mais diversificada e complexa, consistindo em aperfeiçoamentos do próprio mecanismo evolutivo. Assim, enquanto a vida prossegue continuamente rumo a uma complexidade crescente, eventos transcorridos em momentos especiais da história da vida aceleraram essa tendência. De fato, algumas inovações implementadas pelos seres vivos propiciaram o surgimento de mais diversidade.
Uma importante contribuição metaevolutiva foi proporcionada por nossa espécie: o desenvolvimento da linguagem. Como todos os saltos evolutivos, essa forma bastante precisa de comunicação propicia o aumento da acumulação de complexidade obtida. Quero dizer: através da linguagem podemos conservar nossas inovações, nossas invenções. Sem ela teríamos que reinventar tudo o que tivesse sido inventado anteriormente, não havendo razões para acreditar que conseguíssemos superar amplamente as conquistas de Adão, cada um de nós partiria sempre do zero. A linguagem permite que nossas invenções se sobreponham às de outros, somando-se. Trata-se de um modo de acumulação de complexidade sem precedentes, de modo que nossos artefatos e instituições vêm adquirindo complexidade crescente em velocidade cada vez maior.
Creio, assim, que o desenvolvimento da linguagem tenha tido um papel comparável ao surgimento da reprodução sexuada, propiciando, analogamente, a aceleração da aquisição de complexidade em um grau superior ao anterior. A analogia consiste no modo de funcionamento de tais processos, como válvulas, propiciando um fluxo unidirecional de complexidade crescente, impedindo a destruição de complexidades eventualmente surgidas.
Recentemente, físicos do MIT estabeleceram certas considerações termodinâmicas surpreendentes que asseveram uma tendência geral em direção ao aumento de complexidade. Acreditava-se que tal tendência era inerente aos seres vivos, e só a eles. Considerações exclusivamente termodinâmicas, sem nenhum apelo a formas de vida, demonstram que a tendência a se organizar está presente mesmo em sistemas muito simples. Se submetidos a uma fonte de luz, sistemas simples, tendem a adquirir uma ordem crescente; tendem também a se tornar cada vez mais aptos a sugar energia; característica que se imaginava típica apenas dos seres vivos. Também demonstraram que a tendência é crescente: quanto mais complexo um sistema, mais avidamente ele tende a se organizar. Trata-se de um crescimento de segunda ordem, de uma espécie de aceleração na tendência ao aumento de entropia dos sistemas. Isso pode ser visto em:




Um fenômeno muito mais recente e não menos explosivo vem dando continuidade ao processo de aumento crescente de complexidade no universo: o desenvolvimento dos computadores. Essas máquinas universais vêm se tornando cada vez mais complexas, em uma velocidade sem precedentes. Hoje os computadores participam, como auxiliares, em todas as etapas da confecção de novos computadores, desde o projeto de seus circuitos, componentes e programas, até sua confecção física, efetuada em larga medida por meios automáticos.
Logo os computadores conseguirão perfazer todo o ciclo, sendo capazes de projetar, aperfeiçoar e produzir, autonomamente, máquinas mais rápidas, mais complexas, mais econômicas... e tudo o mais que se deseje. Quero dizer, em poucas décadas, algo em torno de 30 anos, suponho, os computadores deverão ser capazes de produzir, sem auxílio humano, computadores ainda mais potentes que eles mesmos, geração que poderá, obviamente, aperfeiçoar o processo, gerando máquinas superiores a si próprias e implementando uma sucessão ilimitada de aperfeiçoamentos cada vez mais rápidos. O resultado, explosivo, é inimaginável.
Baseado apenas no ritmo do processo de aumento de complexidade no planeta, e nessa forma planejada de evolução, arrisco prever que em, aproximadamente, mais outra década, os computadores desenvolverão algo novo e inusitado, incompreensível para nós. Tais seres, muito mais complexos que os computadores de então, deverão continuar o processo, engendrando algo ainda mais surpreendente em um tempo menor, talvez um ano.
Não há limites para o processo, embora ele se estenda muito além de nossa capacidade de compreensão. Tudo indica, no entanto, que tais seres desenvolverão algo qualitativamente novo, novo salto evolutivo, em apenas um mês. O seguinte levará apenas um dia, depois uma hora...
Delinear-se-á, assim, um ponto de acumulação; o instante mágico e absurdo de uma explosão criativa sem precedentes, comparável apenas à grande explosão geradora do universo.
A conclusão acima decorre das duas linhas de raciocínio independentes esboçadas acima: a biológica, através de considerações metaevolutivas, e a física, baseada nos princípios termodinâmicos.
O fenômeno explosivo sugere problemas gravíssimos decorrentes do consumo excessivo de energia; trata-se de mais uma previsão apocalíptica. Outras considerações sugerem forte esperança decorrente das amplas possibilidades abertas pelo momento mágico de criação de mundos.

sexta-feira, 17 de julho de 2015

Redes Sociais Compartilhe       Imprima o artigo ✉ Enviar por e-mail A encíclica do Papa Francisco, por Boff: “Esperança e confiança no ser humano”


Por Leonardo Boff, no Estadão
É a primeira vez que um papa aborda o tema da ecologia no sentido de uma ecologia integral (portanto, que vai além da ambiental) de forma tão completa. Na encíclica Laudato si’, lançada nessa semana, o papa Francisco traz uma grande surpresa: ele elabora o tema dentro do novo paradigma ecológico, coisa que nenhum documento oficial da ONU até hoje fez. Fundamental é seu discurso com os dados mais seguros das ciências da vida e da Terra. Ele lê os dados afetivamente, com inteligência sensível ou cordial, pois discerne que por trás deles se escondem dramas humanos e muito sofrimento também por parte da mãe Terra.
A situação atual é grave, mas o texto do papa Francisco sempre encontra razões para a esperança e para a confiança de que o ser humano pode encontrar soluções viáveis. Honra os papas que o antecederam, João Paulo II e Bento XVI, citando-os com frequência. E algo absolutamente novo: seu texto se inscreve dentro da colegialidade, pois valoriza as contribuições de dezenas de conferências episcopais do mundo inteiro – dos Estados Unidos, da Alemanha, do Brasil, da Patagônia-Comahue, do Paraguai. Acolhe as contribuições de outros pensadores, como os católicos Pierre Teilhard de Chardin, Romano Guardini, Dante Alighieri, de seu mestre argentino Juan Carlos Scannone, do protestante Paul Ricoeur e do muçulmano Ali Al-Khawwas.
Por fim, os destinatários são todos os seres humanos, pois todos são habitantes da mesma “casa comum” (expressão muito usada pelo papa) e padecem das mesmas ameaças. Francisco não escreve na qualidade de mestre e doutor da fé, mas como um pastor zeloso que cuida dessa casa comum e de todos os seres (não só dos humanos) que habitam nela.
Um elemento merece ser ressaltado, pois revela a “forma mentis” (a maneira de organizar o pensamento) do papa. É tributário da experiência pastoral e teológica das igrejas latino-americanas, que à luz dos documentos do episcopado latino-americano (Celam) de Medellín (1968), de Puebla (1979) e de Aparecida (2007) fizeram uma opção pelos pobres, contra a pobreza e em favor da libertação. O texto e o tom da encíclica são típicos do papa Francisco e da cultura ecológica que ele acumulou. Mas me dou conta de que também muitas expressões e modos de falar remetem ao que vem sendo pensado e escrito principalmente na América Latina. Os temas da “casa comum”, da “mãe Terra”, do “grito da Terra” e do “grito dos pobres”, do “cuidado”, da “interdependência entre todos os seres”, do “valor intrínseco de cada ser”, dos “pobres e vulneráveis”, da “mudança de paradigma”, do “ser humano como Terra” que sente, pensa, ama e venera, da “ecologia integral”, entre outros, são recorrentes entre nós.
A estrutura da encíclica obedece ao ritual metodológico usado por nossas igrejas e pela reflexão teológica ligada à prática de libertação, agora assumida e consagrada pelo papa: ver, julgar, agir e celebrar. Primeiramente, revela sua fonte de inspiração maior: São Francisco de Assis, chamado por ele de “exemplo por excelência de cuidado e de uma ecologia integral e que mostrou uma atenção especial aos pobres e abandonados”.
Ver. E então começa com o ver, “o que está acontecendo à nossa casa”. Afirma o papa: “Basta olhar a realidade com sinceridade para ver que há uma deterioração de nossa casa comum”. Nessa parte, ele incorpora os dados mais consistentes sobre as mudanças climáticas, a questão da água, a erosão da biodiversidade, a deterioração da qualidade da vida humana e a degradação da vida social; denuncia a alta taxa de iniquidade planetária, que afeta todos os âmbitos da vida e cujas principais vítimas são os pobres. Francisco traz uma frase que nos remete à reflexão feita na América Latina: “Hoje não podemos desconhecer que uma verdadeira abordagem ecológica sempre se torna uma abordagem social que deve integrar a justiça nas discussões sobre o ambiente, para escutar tanto o grito da Terra quanto o grito dos pobres”. Logo a seguir, acrescenta: “Gemidos da irmã Terra se unem aos gemidos dos abandonados deste mundo”. Isso é absolutamente coerente, pois logo no início ele diz que “nós somos Terra”, na linha do grande cantor e poeta indígena argentino Atahualpa Yupanqui: “O ser humano é Terra que caminha, que sente, que pensa e que ama”.
Depois, condena a proposta de internacionalização da Amazônia, que “apenas serviria aos interesses das multinacionais”. Há uma afirmação de grande vigor ético: “É gravíssima iniquidade obter importantes benefícios fazendo pagar o resto da humanidade, presente e futura, os altíssimos custos da degradação ambiental”. Com tristeza reconhece: “Nunca ofendemos nossa casa comum como nos últimos dois séculos”. Em face dessa ofensiva humana contra a mãe Terra, que muitos cientistas denunciaram como a inauguração de uma nova era geológica – o antropoceno -, lamenta a debilidade dos poderes deste mundo, que, iludidos, “pensam que tudo pode continuar como está” como álibi para “manter seus hábitos autodestrutivos” com “um comportamento que parece suicida”.
Prudente, reconhece a diversidade das opiniões e que “não há uma única via de solução”. Mesmo assim “é certo que o sistema mundial é insustentável sob vários pontos de vista, porque deixamos de pensar os fins do agir humano” e nos perdemos na construção de meios destinados à acumulação ilimitada à custa da injustiça ecológica (degradação dos ecossistemas) e da injustiça social (empobrecimento das populações). A humanidade simplesmente “frustrou a esperança divina”. O desafio urgente, então, consiste em “proteger nossa casa comum”. E, para isso, precisamos, aí citando João Paulo II, “de uma conversão ecológica global”, “uma cultura do cuidado que impregne toda a sociedade”.
Julgar. Realizada a dimensão do ver, se impõe agora a dimensão do julgar. Esse julgar é realizado por duas vertentes, uma científica e outra teológica. Vejamos a científica. A encíclica dedica todo o terceiro capítulo à análise “da raiz humana da crise ecológica”. Aqui o papa se propõe analisar a tecnociência sem preconceitos, acolhendo o que ela trouxe de “coisas preciosas para melhorar a qualidade de vida do ser humano”. O problema é que ela submeteu a economia, a política e a natureza em vista da acumulação de bens materiais. Ela parte de um pressuposto equivocado, que é a “disponibilidade infinita dos bens do planeta”, quando sabemos que já encostamos nos limites físicos da Terra e grande parte dos bens e serviços não são renováveis. A tecnociência se tornou tecnocracia, uma verdadeira ditadura com sua lógica férrea de domínio sobre tudo e sobre todos.
A grande ilusão, hoje dominante, reside na crença de que com a tecnociência se pode resolver todos os problemas ecológicos. Essa é uma diligência enganosa porque “implica isolar as coisas que estão sempre conectadas”. Na verdade, “tudo se relaciona” – uma afirmação que perpassa todo o texto da encíclica como umritornelo, pois é um conceito-chave do novo paradigma contemporâneo. O grande limite da tecnocracia está no fato de “fragmentar os saberes e perder o sentido de totalidade”. O pior é “não reconhecer o valor intrínseco de cada ser e até negar um peculiar valor do ser humano”.
O desvio maior produzido pela tecnocracia é o antropocentrismo moderno. Seu pressuposto ilusório é que as coisas apenas possuem valor na medida em que se ordenam ao uso humano, esquecendo que sua existência vale por si mesma. Se é verdade que tudo está conectado, então, “nós seres humanos somos unidos como irmãos e irmãs e nos unimos com terno afeto ao irmão sol, à irmã lua, ao irmão rio e à mãe Terra”. Como podemos pretender dominá-los e vê-los na óptica estreita da dominação por parte do ser humano?
Todas essas “virtudes ecológicas” são perdidas pelo desejo de poder como instrumento de dominação dos outros e da natureza. Vivemos uma angustiante “perda do sentido da vida e da vontade de viver juntos”. O papa Francisco cita algumas vezes o teólogo ítalo-alemão Romano Guardini (1885-1968), um dos mais lidos nos meados do século passado e que escreveu um livro crítico contra as pretensões da modernidade (Das Ende der Neuzeit, 1959).
A outra vertente do julgar é de cunho teológico. A encíclica reserva bom espaço aoEvangelho da Criação, justificando a contribuição das religiões e do cristianismo, pois, sendo a crise global, cada instância deve, com o seu capital religioso, contribuir para o cuidado da Terra. Não insiste nas doutrinas, mas na sabedoria presente nos vários caminhos espirituais.
O texto se abre para uma visão evolucionista do universo, sem usar a palavra, mas fazendo um circunlóquio, referindo-se ao universo “composto por sistemas abertos que entram em comunhão uns com os outros”. Utiliza os principais textos que ligam Cristo encarnado e ressuscitado com o mundo e com todo o universo, tornando sagrada a matéria e toda a Terra. É nesse contexto que cita Pierre Teilhard de Chardin (1881-1955; jesuíta e teólogo francês, proibido de lecionar e publicar seus textos e cuja obra só foi reconhecida pela Igreja em 1981) como precursor dessa visão cósmica que integra ciência e teologia.
A encíclica conclui essa parte acertadamente: “A análise mostrou a necessidade de uma mudança de rumo. Devemos sair da espiral de autodestruição em que estamos afundando”. Não se trata de uma reforma, mas, citando a Carta da Terra(declaração de princípios éticos para a construção de uma sociedade global justa, sustentável e pacífica; iniciativa da ONU ratificada em 2000), de buscar “um novo começo”. A interdependência de todos com todos nos leva a pensar “num só mundo com um projeto comum”.
Agir. O terceiro passo metodológico é o agir. Nessa parte, a encíclica se atém aos grandes temas da política internacional, nacional e local. Sublinha a interdependência do social e do educacional com o ecológico e constata lamentavelmente os constrangimentos que o predomínio da tecnocracia traz, dificultando mudanças capazes de frear a voracidade da acumulação e do consumo e de inaugurar o novo. Retoma o tema da economia e da política, que devem servir ao bem comum e criar as condições de uma plenitude humana possível. Volta a insistir no diálogo entre a ciência e a religião, como vem sendo sugerido pelo grande biólogo americano Edward O. Wilson (A Criação: Como Salvar a Vida na Terra, 2008). Todas as religiões “devem buscar o cuidado da natureza e a defesa dos pobres”.
Ainda no aspecto do agir, a encíclica desafia a educação a criar a “cidadania ecológica” e um novo estilo de vida assentado sobre o cuidado, a compaixão, a sobriedade compartida, a aliança entre humanidade e ambiente, pois ambos estão umbilicalmente ligados, e a corresponsabilidade por tudo o que existe e vive e pelo nosso destino comum.
Celebrar. Por fim, o momento do celebrar. A celebração se realiza num contexto de “conversão ecológica” que implica uma “espiritualidade ecológica”. Esta se deriva não tanto das doutrinas teológicas, mas das motivações que a fé suscita para cuidar da casa comum e “alimentar uma paixão pelo cuidado do mundo”. Tal vivência é, antes, uma mística que mobiliza as pessoas a viverem o equilíbrio ecológico, “aquele interior consigo mesmo, aquele solidário com os outros, aquele natural com todos os seres vivos e aquele espiritual com Deus”. Aí aparece como verdadeiro que “o menos é mais” e que podemos ser felizes com pouco. No sentido de celebração, “o mundo é mais que uma coisa a se resolver, é um mistério grandioso para ser contemplado na alegria e no louvor”.
O espírito terno e fraterno de São Francisco de Assis perpassa todo o texto da encíclica. A situação atual não significa uma tragédia anunciada, mas um desafio para cuidarmos da casa comum e uns dos outros. Há no texto leveza, poesia e alegria no Espírito e inabalável esperança de que, se grande é a ameaça, maior é a oportunidade de solução de nossos problemas ecológicos.
Francisco termina poeticamente com as palavras “Para além do sol”, dizendo: “Caminhemos cantando. Que nossas lutas e nossas preocupações por esse planeta não nos tirem a alegria da esperança”.
Apraz-me terminar com as palavras finais da Carta da Terra que o próprio papa cita: “Que o nosso tempo seja lembrado pelo despertar de uma nova reverência face à vida, pelo compromisso firme de alcançar a sustentabilidade, a intensificação da luta pela justiça e pela paz, e a alegre celebração da vida”.
LEONARDO BOFF É TEÓLOGO E ECÓLOGO. ESTE TEXTO SERÁ UM CAPITULO DE UM LIVRO ITALIANO, CURARE LA TERRA (EDITRICE EMI, BOLOGNA 2015)

sexta-feira, 15 de maio de 2015

O Deus de cada um, por Mouzar Benedito


Do Blog da Boitempo
Por Mouzar Benedito
Jesuis aprometeu que havéra de sarvá
A todos fiéis que o pé da cruiz bejá.
Bejemo, rebejemo, tornemo a rebejá,
Que é pra Jesuis querê nos sarvá.
(Música cantada por beatas na periferia paulistana no final dos anos 1960)
A igreja do Senhor qual será pararapapá.
A igreja do Senhor qual será pararapapá.
Será a que cura os enfermo
E que espanta o capetá.
(Música cantada por um pregador evangélico e seus seguidores no Largo da Concórdia, no final dos anos 1960)
Antes de entrar nuns ditados populares e frases de famosos (ou nem tanto) sobre o assunto, umas considerações. A palavra fé vem do latim, fides, e do grego,pistia. É a confiança absoluta em algo. É uma opinião firme de que algo é verdade, sem qualquer prova.
Para muita gente, todos têm que ter uma “fé”, no caso confundida com religião. Quem não tem é mau.
Segundo dizem, Deus é bom (ou justo?)… Todas as religiões pregam o bem… Será?
Mata-se muito em nome de Deus e das religiões. E isso não é de hoje: basta lembrar alguns episódios históricos. Por exemplo:
1. Sócrates foi condenado à morte em Atenas, e um motivo que pesou muito para essa condenação foi que ele cultuava deuses que não eram atenienses.
2. Leiam o Velho Testamento da Bíblia, na parte que trata das pragas contra o povo egípcio: o faraó queria deixar o povo hebreu se mandar do Egito, para se livrar de pragas mandadas pelo Deus desse povo. Mas, para mostrar poder, Deus “endurecia o coração do faraó” para que ele não permitisse a saída dos hebreus, e depois castigava o povo todo, de forma cruel, inclusive matando os filhos primogênitos de cada família.
3. Roma perseguia e matava os cristãos, colocavam nos circos para serem comidos por leões, sob o aplauso daqueles que professavam a religião dominante naquele império. Também decapitava, queimava, martirizava… Estudem um pouco a vida dos santos católicos e verão. Depois a coisa se inverteu: Roma se tornou cristã e passou a perseguir os não cristãos.
4. A “Santa” Inquisição matava na fogueira quem ela julgava que não era católico e/ou cometia heresias contra o cristianismo.
5. A colonização da América tinha como base de apoio a conversão dos povos dominados à fé cristã, e para isso era permitido matar, estuprar, roubar, fazer o que fosse preciso. E isso valeu para a colonização de outras partes do mundo.
A crueldade dos colonizadores espanhóis era tanta que vale sempre lembrar a história do cacique Hatuey, nascido no Haiti, que foi a Cuba de canoa, no início do século XVI, prevenir os povos indígenas de lá sobre a maldade dos espanhóis. Ele foi pego lá e condenado à morte na fogueira. Um padre disse que se ele se convertesse ao cristianismo iria para o céu. Hatuey perguntou ao padre se espanhóis também iam para o céu, e ele disse que sim. Então o cacique disse algo mais ou menos assim: “Então quero ir para o inferno. Não quero ir para um lugar com gente tão ruim”.
6. Os colonizadores (inclusive os portugueses aqui) demonizavam os deuses dos colonizados, diziam que eram demônios. Impuseram o cristianismo na marra. Hoje em dia ainda há “cristãos” com a mesma mentalidade. Certas seitas evangélicas consideram demônios, por exemplo, todos os deuses das religiões africanas e indígenas.
7. As guerras do Oriente Médio atualmente têm justificativas religiosas, embora por trás esteja também a riqueza do petróleo. De qualquer forma, a intolerância é uma marca das religiões dali, a fé alheia é considerada sempre maligna. Estão aí os exemplos exacerbados do Estado Islâmico e do Boko Haram. Mas mesmo dentro da mesma religião mata-se gente por discordâncias internas, com atos terroristas horrorosos.
Li em algum lugar que as religiões monoteístas são as piores, têm deuses mais, digamos, “vaidosos” e impiedosos, que não aceitam a existência de outros deuses, seus seguidores têm que ser exclusivamente deles. As politeístas pelo menos têm deuses que não são exclusivos. Achei interessante.
Eu mesmo andei escrevendo algumas abobrinhas sobre religião, fé etc. Aí vão elas:
Sou materialista desde a outra encarnação.
* * *
Quando alguém abre a alma, o que encontra dentro dela?
* * *
De que religião são as pessoas de boa-fé?
* * *
Há pessoas que passam a vida cantando “Hosanas ao Senhor”, para poder ir para o céu, onde passarão a eternidade cantando “Hosanas ao Senhor”.
* * *
É fundamental
A quem não tem fundamento
Ser fundamentalista
* * *
Deus é fiel!
Mas tem uns arautos…
Deus do céu!
* * *
Para os fundamentalistas, a vida não é fundamental.
* * *
Nas forças do inferno
O capitão
É um capetão
* * *
Cometeu pecados,
O motivo eu sei:
A necessidade não tem lei
* * *
Que caráter bélico
Tem o pastor
Que se diz evangélico
* * *
Deus é amor.
O diabo
É o atravessador.
* * *
Mulher que “dá” aos pobres empresta o quê a Deus?
* * *
Quem sobe no Dedo de Deus vê os anéis de Saturno?
* * *
Deus é contraditório nos ditados populares: não dá asas a cobra, mas dá nozes a quem não tem dentes.
* * *
No uso da mitologia romana com produtos de limpeza, a arte ganhou mais statusque a ciência: o deus das artes, Phebo, virou um sabonete perfumado enquanto o das ciências, Minerva, virou sabão em pó.
* * *
Se a voz do povo é a voz de Deus, Deus anda muito reclamão.
* * *
Contradição de protestante é aceitar sem protestar tudo que o pastor lhe diz.
* * *
A fé remove montanhas. Mas para fazer isso, precisa contar com a ajuda de grandes máquinas de terraplenagem e, às vezes, até dinamite.
DITADOS POPULARES:
Muitos ditados relacionados a Deus são “edificantes”, conformistas. Há o clássico “Deus dá o frio conforme o cobertor”, usado na bela música Saudosa Maloca, de Adoniran Barbosa. Dizem que “o homem põe e Deus dispõe”, ou “se Deus é por nós, quem será contra nós?”, ou “o futuro a Deus pertence”. Ou ainda que “o pouco com Deus é muito e o muito sem Deus é nada”. E tem aquela: “Quem não morre, não vê Deus”.
Mas há outros não tão piegas assim. Aí vão alguns:
Deus é bom, e o diabo não é mau.
* * *
O diabo não é tão feio como o pintam.
* * *
Se o diabo morresse, poucos se importavam com Deus.
* * *
De dinheiro e santidade, a metade da metade.
* * *
O diabo é o outro.
* * *
Deus é grande, mas o mato é maior.
* * *
O homem põe, e Deus dispõe.
* * *
Oração curta depressa chega ao céu.
* * *
O diabo ajuda os seus.
* * *
O diabo reza também.
* * *
O diabo sabe muito, porque é velho.
* * *
Quem é besta pede a Deus que o mate e ao diabo que o carregue.
* * *
Sacristão novo cospe fora da igreja; sacristão velho mija no altar.
O QUE DISSERAM ALGUNS INTELECTUAIS, ARTISTAS ETC.      
Isaac Asimov: “Todas as religiões são a verdade sagrada para quem tem a fé, mas não passam de fantasia para os fiéis das outras religiões”.
* * *
Anatole France: “A religião prestou ao amor um grande serviço, fazendo dele um pecado”.
* * *
Simone Weil: “A religião como fonte de consolação é um obstáculo à verdadeira fé; nesse sentido, o ateísmo é uma purificação”.
* * *
Afonso Schmidt: “O catolicismo é uma revolução comunista que fracassou”.
* * *
Menotti Del Picchia: “Deus está dentro da imaginação que cria e que crê”.
* * *
Simone de Beauvoir: “Eu passava muito bem sem Deus. E, se utilizava seu nome, era para designar o vazio que tinha, a meus olhos, o clarão da plenitude”.
* * *
William Shakespeare: “O diabo pode citar as Escrituras quando isso lhe convém”.
* * *
Voltaire: “A religião mal entendida é uma febre que pode terminar em delírio”
* * *
Clóvis Ernesto Correia: “Foi Deus quem fez o Céu alto para lá não ir ninguém”.
* * *
Nietzsche: “Não posso acreditar num Deus que quer ser louvado o tempo todo”
* * *
Schopenhauer: “Não nos deixar cair em tentação é o mesmo que dizer: não nos deixar ver quem realmente somos”.
* * *
Medeiros de Albuquerque: “Os crentes chamam ‘Deus’ à causa ignorada de tudo que se conhece.
* * *
Medeiros de Albuquerque, de novo: “O ateísmo sereno, a certeza de que só conosco devemos contar, dá mais tranquilidade ao espírito do que qualquer religião”.
* * *
Rubem Alves: “Deus nos deu asas do pensamento para voar, os homens nos deram as gaiolas da religião”.
* * *
Vincent van Gogh: “Quando sinto uma terrível necessidade de religião, saio à noite para pintar as estrelas”.
* * *
Marquês de Maricá: “A religião é como a pátria, sempre nos parece melhor a nossa própria”.
* * *
Bakunin: “Religião é demência coletiva”.
* * *
Karl Marx: “O primeiro requisito da felicidade dos povos é a abolição da religião”.
* * *
Sophie Arnaud: “As mulheres se dão para Deus quando o diabo já não quer mais nada com elas”.
* * *
Padre Manuel Bernardes: “Que é o inferno? Reino da morte viva”.
* * *
Aldous Huxley: “O céu que vá para o diabo”.
* * *
Aldous Huxley de novo: “E se este mundo for o inferno de outro planeta?”.
* * *
Renato Kehl: “Místico é aquele que não consegue manter-se no domínio das realidades, perdendo-se em devaneios sem fim”.
* * *
Dante Alighieri: “No inferno os lugares mais quentes são reservados àqueles que escolheram a neutralidade em tempo de crise”.
* * *
Gregor Samsa: “O inferno só existe onde existe religião”.
* * *
Clarice Lispector: “Quando de noite ele me chamar para a tração do inferno, irei. Desço como um gato pelos telhados. Ninguém sabe, ninguém vê. Só os cães ladram pressentindo o sobrenatural”.
* * *
Francisco de Bastos Cordeiro: “A oração contemplativa é o monólogo em êxtase. A oração imperativa, uma forma de suborno”.
* * *
Gustave Le Bon: “Se o ateísmo se propagasse, tornar-se-ia uma religião tão intolerável como as antigas”.
* * *
Eduardo Galeano: “O corpo não é uma máquina como nos diz a ciência. Nem uma culpa como nos fez crer a religião. O corpo é uma festa”.
* * *
Luís Freitas Rodrigues: “O papel da igreja no plano espiritual dever ser o de dar e não o de pedir, e muito menos o de exigir”.
* * *
Bob Marley: “Não tenho religião, eu sou o que sou. Eu sou um Rastafári… E isso não é religião, isso é vida”.
* * *
Camilo Castello Branco: “As religiões, prometendo infernos além deste mundo foram mais inventivas que Deus”.
* * *
José Saramago: “O problema não é um Deus que não existe, mas a religião que o proclama”.
* * *
Eurípides: “O dinheiro é a religião do homem de bom senso”.
* * *
Afrânio Peixoto: “A religião é um tropismo humano”.
* * *
Raquel de Queiroz: “Quanto ao ateu, a diferença que faz do deísta, é que ele próprio é o seu Deus”.
* * *
Robert M. Pirsig: “Quando uma pessoa sofre um delírio, isso se chama insanidade. Quando muitas pessoas sofrem um delírio, isso se chama religião”.
* * *
Miguel Couto: “Vinte séculos de cristianismo não fixaram o homem na humanidade”.
* * *
Joracy Camargo: “Deus é o único que perdoa os ateus”.
* * *
Joracy Camargo, de novo: “O homem crê porque tem medo de não crer”.
* * *
Ivan Lins: “A crença em Deus, até mesmo quando se trata de sacerdotes e Papas, nem sempre concorre para melhorar os homens”.
* * *
Olavo Bilac: “O medo é o pai da crença”.
* * *
Guerra Junqueiro: “A razão é um verme, mas a crença é asa”.
* * *
Jean-Paul Sartre: “Não há necessidade de grelhas, o inferno são os outros”.
* * *
Fernando Pessoa: “Haja ou não deuses, deles somos servos”.
* * *
Gorki: “A mentira é a religião dos escravos e dos senhores”.
* * *
Rui Barbosa: “Um povo cuja fé se petrificou, é um povo cuja liberdade se perdeu”.
* * *
Augusto de Lima: “A crença é pretensão de ver em plena treva”.
* * *
Jô Soares: “No Brasil, quando o feriado é religioso, até ateu comemora”.
* * *
Winston Churchill: “Se estiver passando pelo inferno, continue caminhando”.
* * *
Ieda Graci: “No coração dos maus há sempre um pouco de boa fé”.
* * *
John Lennon: “Eu acredito em Deus, mas não como uma coisa, não como um velho no céu. Creio que o que as pessoas chamam de Deus é algo que está em todos nós. Acredito que o que Jesus, Maomé, Buda e outros disseram está certo. São as traduções que foram erradas”.
* * *
Charles Darwin: “Não consigo acreditar que alguém deseje que o cristianismo seja verdadeiro: porque se for, o texto da Bíblia deixa claro que os que não acreditam nela, e isso incluiria meu pai, meu irmão e quase todos os meus melhores amigos serão eternamente punidos. E essa é uma doutrina abominável”.
* * *
Leoni Kaseff: “O fanatismo é um estado d’alma, em que a paixão do crente se converte em alucinações”.
* * *
Antero de Figueiredo: “As superstições são o vício mísero dos espíritos mesquinhos”
* * *
Josué de Castro: “O beato fanático traduz a vitória da exaltação moral, apelando para as forças metafísicas a fim de conjurar o instinto solto e desacordado”.
* * *
Sigmund Freud: “Um homem que está livre da religião tem uma oportunidade melhor de viver uma vida mais normal e completa”.
* * *
Humberto de Campos: “Se a religião pode fazer o santo, a descrença pode fazer o justo”.
* * *
Walther Waeny: “As grandes religiões nascem, muitas vezes, de uma heresia”.
* * *
Charles Baudelaire: “Quem docemente nosso espírito consola (…) é o Diabo que nos move e até nos manuseia”.
* * *
Stanislaw Ponte Preta: “Se o diabo entendesse de mulher, não tinha rabo nem chifre”.
* * *
Napoleão Bonaparte: “A religião é aquilo que impede os pobres de matarem os ricos”
* * *
Autor desconhecido: “Jesus é o caminho. Edir Macedo é o pedágio”.
* * *
Stendhal: “Todas as religiões são fundadas sobre o temor de muitos e a esperteza de poucos”.
* * *
Júlio Dantas: “Deus, se tivesse de ouvir os pecados de uma mulher, ouvia-os sorrindo”.
* * *
Albert Einstein: “A religião do futuro será cósmica e transcenderá um Deus pessoal, evitando os dogmas e a teologia”.
* * *
Machado de Assis: “O maior pecado, depois do pecado, é a publicação do pecado”.
* * *
Jonathan Swift: “Nós temos a religião suficiente para nos odiarmos, mas não a que baste para nos amarmos uns aos outros”.
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Roberto das Neves: “O pior pecado é nunca ter pecado”.
* * *
Autor desconhecido: “O fanatismo é para a religião o que a hipocrisia é para a virtude”.
* * *
Christopher Marlowe: “Considero a religião um brinquedo infantil, e acho que o único pecado é a ignorância”.
* * *
Mahtama Gahdhi: “Eu seria cristão sem dúvida, se os cristãos o fossem 24 horas por dia”.
* * *
Guimarães Rosa: “Deus come escondido, e o Diabo sai por toda parte lambendo o prato”.
* * *
Guimarães Rosa, de novo: “E, outra coisa, o Diabo é às brutas; mas Deus é traiçoeiro.! Ah, uma beleza de traiçoeiro – dá gosto! A força dele, quando quer me dá o medo pavor! Deus vem vindo: ninguém não vê. Ele faz é na lei do mansinho, assim é o milagre”.
* * *
Bernardo Guimarães: “Dos grandes pecadores fazem-se os grandes santos, como da imundície e da podridão brotam por vezes as mais lindas e viciosas plantas”.
* * *
Mário Quintana: “O milagre não é dar vida ao corpo extinto, ou luz ao cego, ou eloquência ao mudo… Nem mudar água pura em vinho tinto. Milagre é acreditarem nisso tudo”.
PARA TERMINAR…
Um causo que publiquei no livro Santa Rita Velha Safada
Sá Donana ficou muito irritada no domingo de manhã, quando saía para a missa e deu de cara com o Micuim dormindo bêbado bem em frente a sua porta. Mas, como estava indo para a igreja, em vez de fazer um esporro, resolveu demonstrar seu espírito cristão, tentando recuperar o Micuim com conselhos — que era o máximo que se dispunha a dar a quem quer que fosse.
Cutucou o bêbado com o pé, até ele acordar mal-humorado.
— Seu Micuim, o senhor não tem vergonha de viver bêbado todos os dias? O senhor parece que não gosta da vida, que não acredita em nada, que não tem fé…
— Péra aí… fé eu tenho. Gosto muito de dois Santos!
Animada, pensando que afinal ele tinha salvação e que sua boa ação ficaria um pouco mais fácil, ela prosseguiu:
— É!? E quais são os dois santos que o senhor gosta?
— São Risal quando tô de fogo e São Duíche quando tô com fome.
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Gostou? Clique aqui, para ver todas as outras 30 colunas da série “Cultura inútil”, de Mouzar Benedito, no Blog da Boitempo!
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Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo,Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças.